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30 June 2010 @ 12:00 pm
Track Story | round #1 ~ Hope  



Música utilizada: Gong by Sigur Rós. Escolha feita por Hope.

Modo de leitura: Essa história está demarcada de acordo com o tempo da música, por isso seria melhor aproveitada se fosse lida primeiramente em silêncio. Coloque a música apenas para tocar quando a leitura chegar ao seu fim para acompanhar as demarcações de tempo existentes no texto. Dessa forma, você saberá identificar o que acontece em cada parágrafo por conta da leitura prévia e então compará-lo ao som da melodia sem ter perdido o sentido desta, caso ela estivesse tocando repetitivamente durante a leitura. Um outro ponto importante é que eu imaginei essa história como uma seqüência de imagens em minha mente. Tente percebê-la como uma espécie de filme quando estiver prestando atenção nas demarcações da música. Imagens são muito mais rápidas do que palavras, por isso esses cortes foram feitos para que pudessem se encaixar ao tom da melodia.




Gong
Sigur Rós


0:00 ~ 0:17
Um casebre situava-se no topo de uma colina ao longe. A grama alta esvoaçava por conta da ventania e o céu estava bastante límpido, indicando que o dia seria luminoso. A imagem se aproximou vagarosamente até a janela aberta e passou pelo buraco tentando reajustar a visão de acordo com a pouca iluminação ali dentro, que só vinha daquele feixe de luz e também por uma pequena fresta por baixo da porta. O casebre era revestido por pedras em seu interior assim como era por fora. A única coisa que decorava o cômodo era uma mesa quadricular de madeira bruta e uma cadeira do mesmo material como sua acompanhante, ambos empoeirados. A atenção então voltou a se focar em direção à janela e uma pessoa estava ali, sentada ao chão logo abaixo desta, enquanto a sombra engolfava seu rosto e um pedaço de seu tronco. O rastro de luz iluminava seus antebraços que estavam apoiados em seus respectivos joelhos. Partículas de poeira dançavam ao seu redor. Alguma coisa estava segura em suas mãos. Alguma coisa que brilhava.

0:18 ~ 0:36
V. visualizou uma última vez o anel incrustado com pedras e que levava ao centro o brasão de sua família antes de segurá-lo firmemente em seu punho – como se ele pudesse lhe trazer sorte e talvez um pouco de força – e então escorregá-lo rapidamente em uma corrente fina e prateada e fixá-la em volta de seu pescoço. Levantou-se por fim, retirando a sujeira de trás de sua calça com as mãos, antes de pegar sua bolsa que até então jazia ao seu lado no chão. Abriu-a em cima da mesa e retirou de lá bandagens que estavam embrulhadas em pequenos rolos. Ela não queria e muito menos precisava machucar seu pulso novamente em uma movimentação calculada erroneamente. Enrolou as bandagens esbranquiçadas em volta de cada pulso firmemente, passando também o pano através de suas palmas para formarem uma espécie de luva protetora. Apanhou o par de sai pelas empunhaduras e voltou seu corpo em direção à luz para observar se eles estavam bem cuidados. O aço brilhava e arremessava sombras através das pontas cegas e arredondadas das adagas principais e de suas projeções laterais. Ela precisava das mãos firmes e seguras, por isso resolveu manuseá-los com alguns movimentos deliberados para ter a certeza de que as bandagens não atrapalhariam. Prendeu as armas em seu cinto e então escorregou uma terceira e também idêntica em suas costas.

0:37 ~ 1:14
A descida íngreme da colina para deixar o casebre rapidamente para trás fez com que o tecido leve e escurecido do casaco de V. esvoaçasse para todos os lados. Seus cabelos compridos que possuíam a mesma coloração dançavam também em uma espécie de padrão ao seu redor. Ela observou o céu por alguns segundos enquanto suas botas esmagavam a grama embaixo de si por conta da caminhada. E lá estava o cinza aparecendo em suas íris por mais um dia. A visão de V. estava defeituosa já algum tempo. Ela não conseguia mais enxergar cor alguma. Sua vida era branca. E preta. E cinza. Existiam inúmeros matizes e combinações entre essas três, porém a última predominava com a quantidade de tonalidades aplicadas à sua volta e até mesmo nela. E V. não gostava de cinza. Era frio. Impessoal. Sem vida. Ela sabia a cor do céu, das nuvens, da grama que percorria aquele vale e até mesmo a cor de seus olhos, assim como o colete de seu uniforme de batalha que combinava com o couro enegrecido de suas botas e calça. Lembrava-se perfeitamente da paleta de cores que invadiam o mundo e a guardava em sua memória como parte de uma época feliz, uma época mais saudável. V. sentia-se doente, uma sensação esquisita apoderava-se de seu corpo a cada passo que dava. Os músculos se tencionavam para uma rigidez quase visível. E ela sabia o motivo. Estava caminhando para viver ou morrer. Hoje era o dia definitivo. Não existia mais razão para continuar fugindo e mudar de localização a cada três dias como uma andarilha covarde. O medo já havia algum tempo se extinguido por completo e era por isso que ela estava ali seguindo em frente com aquilo.

1:15 ~ 1:50
A mente de V. lhe pregou uma peça quando fora invadida por uma torrente de imagens e memórias de seu passado. Engoliu a saliva, por fim, em uma tentativa inútil de se livrar de um nó na garganta que a incomodava desde cedo. Ela se lembrava do cheiro das flores que enfeitavam o templo, do balançar das folhas das árvores altivas, assim como a textura da madeira que corria livremente por todo o chão da sala de treinamentos, corredor e até mesmo em seu quarto. Lembrou-se das marcas de expressão já proeminentes no rosto de seu tutor quando ela era ainda pequena. V. fora adotada por este homem. Ela ainda se recordava da sensação de desconfiança e medo quando ele a encontrou vagando pelas ruas da cidade e levou-a até sua casa – que era acoplada a um dojo que pertencia à família há várias gerações – para cuidá-la e tratá-la de modo que a deixasse uma criança saudável novamente. Ele escolhera um nome que combinasse com ela porque V. não conseguia relembrar coisa alguma de seu passado, desde seu verdadeiro nome, seus pais, e até mesmo porque estava vivendo na rua para começo de conversa. A única coisa que viera com ela daquela época era uma cicatriz que surgia a partir do começo de sua testa até a altura de seu supercílio direito. Euforia e felicidade invadiram cada pedacinho de seu ser quando ele lhe oferecera um lugar para ficar. E não era a cama, a comida e a vestimenta que V. estava obviamente interessada. Ela teria um pai dedicado que estava disposto a cuidar de seu bem-estar a partir de agora. Ele lhe ensinara a lutar e manusear armas brancas conforme o tempo fora passando, e ela realmente estava se tornando excelente nisso porque não existia um só dia que ela não estivesse quebrando as próprias barreiras de seu corpo, de sua concentração e de sua disciplina apenas para colocar mais um sorriso orgulhoso no rosto de seu tutor. V. gostava da sensação boa que lhe dominava, uma espécie de paz interior quase que intocável e pura quando ele se lembrava de seu único filho de sangue – que havia falecido antes mesmo de sua chegada ali – para então fazer comparações entre os dois, demarcando algumas características de suas personalidades que lhes eram similares. Durante esses momentos, V. se dava conta de que não era apenas mais uma pessoa esquecida no mundo com um passado que a engolfava por caminhos tortuosos e incertos. Ela se tornara verdadeiramente a filha de alguém.

1:51 ~ 2:10
Os pés de V. paralisaram na grama no instante em que ela se deparou com um vulto enegrecido há vários metros de onde se encontrava. Apesar da distância, ela conseguia se lembrar perfeitamente da codificação de cores que mesclavam os traços e a silhueta de sua irmã no passado, mesmo que naquele momento esta estivesse tendenciando mais para o negro de sua vestimenta, o que de certa forma não lhe era usual além, é claro, de as três cores monocromáticas estarem compostas nela através das íris de V. O olhar que elas trocaram enquanto marchavam lentamente em direção a um ponto de encontro mais central era avassalador. Tenso. Resignado. Furioso. Era quase uma sensação palpável, como se as duas já estivessem duelando antes mesmo de o contato físico acontecer. Os músculos rígidos de V. voltaram a reclamar diante da iminente batalha. Ela sabia com quem estava lidando. Sabia também das falhas corporais e movimentações imperfeitas de sua inimiga. Conhecer os pontos fracos do oponente já era um começo, mas isso não queria dizer que a luta seria mais fácil, já que sua irmã também possuía anos de observação de suas falhas e dificuldades. E H. era esperta, além de saber lutar como ninguém. Flashes invadiram os pensamentos de V. relembrando-a dos inúmeros momentos felizes ao lado da irmã. H. também fora adotada pelo seu tutor, só que diferentemente de V., ela tinha uma mãe que trabalhava como empregada no dojo. As duas chegaram cinco anos depois de V. já estar mais do que familiarizada com aquele ambiente. Enquanto a mãe exercia sua função diariamente em troca de abrigo, H. estava sempre observando com seus olhinhos curiosos as aulas e os alunos que iam e vinham àquele dojo. O tutor percebera o interesse genuíno da menina – que era apenas dois anos mais jovem que V. –, e então começara a consumir de seu próprio tempo livre para treiná-la e quem sabe torná-la páreo para a mais velha. Ao perceber que H. parara de caminhar, V. resolveu diminuir o passo também. Ela aproveitou para retirar o casaco e jogá-lo ao chão – este esvoaçando para longe de si por conta da ventania – e também levar suas mãos em direção aos sai presos em sua cintura e puxá-los de lá. Sua respiração ficou mais pesada assim que avistou H. desembainhar sua principal arma branca, uma espada. Sua irmã não quisera tirar o sobretudo e ela entendia o motivo por trás disso. Houve então um momento de espera à procura de reflexão onde as coisas ao redor poderiam ser mais clarificadas para que somente a luta a seguir entrasse em foco. V. sabia que H. nunca daria o primeiro passo porque era uma espécie de padrão que ela utilizava desde pequena para testar com qual tipo possível de oponente estaria lidando. V. arrumou seus sai em uma postura defensiva rapidamente – as adagas principais encostando-se às laterais de seus braços – e se pôs a correr.

2:11 ~ 3:15
O barulho de aço se chocando era a única coisa que as irmãs compartilhavam igualmente naquele vale. Elas não se falaram em momento algum. O corpo e a agilidade, por outro lado, funcionavam impecavelmente devido aos anos de treinamento intensivo. Somente através dos movimentos de ataque e os de defesa que elas conseguiam se comunicar e então perceber como cada uma estava sendo afetada por aquele embate positiva ou negativamente. V. percebera, entretanto, que os movimentos de H. não estavam cuidadosos, mas sim tremulados e tensos demais, quase como se ela estivesse ansiosa para terminar com aquilo de uma vez por todas. E V. entendia o porquê. H. não fora treinada para matar ou morrer. Sua essência era naturalmente boa e era bastante óbvio para V. que aquilo seria difícil para a irmã em muitos níveis. Porém, como tudo pode mudar de uma hora para outra, se H. estava ali, isso queria dizer que ela sofrera alguma alteração e estava tão preparada para matar quanto a outra estava. Já do lado contrário, V. se orgulhava de ser uma lutadora resistente. A rua lhe ensinara esse aspecto diariamente. Ela adquirira com o tempo uma dureza incontestável quando se tratava da fadiga e da dor. Seus músculos poderiam estar tensos desde cedo, mas nada iria detê-la de seu objetivo final naquele momento. As artilharias pararam de se encontrar durante alguns instantes para que elas pudessem descansar e avaliar possíveis melhorias no contra-ataque. Com as armas ainda em formação, elas encararam-se por fim. Ao observar melhor o rosto de sua irmã, V. percebeu que suas feições estavam mais endurecidas pelo cansaço e pela tristeza durante o tempo em que estiveram separadas antes daquilo tudo acontecer. No entanto, o olhar de H. era o que mais destoava de seu passado. Ele transmitia ódio. Purgava através de suas íris e ia queimando lentamente a visão defeituosa de V. Com uma potência ainda maior, V. voltou para cima de H., mas esta acabara bloqueando a estocada perfeitamente bem, o que já era de se esperar porque as duas tinham conhecimento das mesmas modalidades quando se tratava de artes marciais. Era quase como se elas lessem os pensamentos uma da outra e pudessem prever seus próximos golpes. Quantas vezes as duas não fizeram aquilo? O tutor as testava o tempo todo para que ambas chegassem a um nível tão elevado e perfeito de um guerreiro sem falhas que elas acabaram perdendo a conta das ocasiões que se enfrentaram. Tudo era diferente agora porque não era mais uma questão estúpida de evolução das características de uma vencedora ou perdedora, mas sim de vida ou morte. V. lembrou-se do choro e da dor de H. quando uma doença incurável entrou no caminho de sua mãe e fê-la falecer em pouco tempo. H. nem ao menos havia chegado a sua adolescência e já carregava o peso de ser órfã pelo mundo afora. V. conhecia a angústia de ser solitária antes de sua vinda para o dojo, por isso tentou reconfortar sua amiga da melhor maneira possível naquela época enquanto o luto a cercava de recordações de sua mãe em todos os cantos daquele lugar. E então, H. se tornara sua irmã algum tempo depois. Parecia o certo a se fazer. O tutor – agora de ambas – conservou um bom desenvolvimento diante da nova dinâmica familiar porque precisava de seu senso de justiça e por horas de sua bondade para criar duas jovens completamente diferentes. Apesar de nutrirem a mesma paixão pela luta, o tipo de personalidade que cada uma possuía era tão distinto que chegava a um ponto que elas acabavam se completando e se fortalecendo em seus extremos opostos. Elas tiveram que trabalhar juntas. E com isso vieram os títulos. Filhas. Irmãs. Alunas. Parceiras. Porém, naquele exato momento em que suas armas se encostavam e se defendiam acontecia um desmoronamento dentro de ambas onde o conjunto não mais funcionava de forma viável, já que era muito mais fácil deixar-se levar pela fúria e pelo ressentimento e trabalhar cada uma por si. A partir de uma rachadura principal elas se tornaram inimigas e as fissuras menores que sempre estiveram lá em um estado latente pareceram ter ganhado uma força muito maior e absurda a ponto de todo e qualquer laço que elas construíram nos últimos anos desaparecer definitivamente. E lá estavam elas. Completas estranhas uma para a outra.

3:16 ~ 4:06
A primeira a errar ali seria aquela que perderia tudo. Foi aí que V. notou uma já conhecida falha no joelho problemático de H. e aproveitou os dois segundos que ela chegara atrasada em sua defesa para bater ambas as pontas das empunhaduras dos sai em seu abdome. Ao ser atingida em uma das costelas, H. sentira a dor do impacto e acabara se desequilibrando e dando alguns passos para trás bem a tempo de V. esmurrar seu rosto com o apoio também do choque do aço de sua arma. Sangue jorrou do corte na bochecha de H. fazendo com que ela se afastasse o máximo possível da outra para se recompor rapidamente. Um sorriso com uma pontada de vitória perpassou pelos lábios de V. ao notar a instabilidade de sua irmã. Se tinha uma coisa na qual ela sempre gostara de fazer era assistir os erros de H. com uma perspectiva um tanto quanto onipotente. Quase como se ela tivesse uma certa necessidade em ver os outros fracassarem. Antes mesmo que H. se estabilizasse por completo, V. aproveitou a brecha para contra-atacar e lançar em cima da irmã uma série de movimentos que projetavam a fúria que estava sentindo. E isso só fez aflorar ainda mais as recordações de todos os momentos que já sentira ódio de H.. Em um segundo esta era apenas uma amiga que estava aprendendo a lutar e de uma hora para outra tornara-se uma irmã e, portanto, uma causadora de problemas. Isso era o que H. era. Uma insolente garotinha pobre que estava à procura de atenção e parecia adorar esse fato. O tempo inteiro ela comovia as pessoas ao seu redor com aquela carinha perfeita de profunda carência. Só V. sabia o quanto aquele tipo de comportamento era irritante. Ela não precisava se postar como uma criança para conseguir o que queria. Simplesmente tinha que trabalhar avidamente em busca de seus objetivos e obviamente não precisava do suporte de ninguém. H., por outro lado, demonstrava-se fraca por pedir ajuda sempre que precisava. Sua personalidade extrovertida queimava os sentidos de V. e atenuava mais ainda seu ódio por não conseguir chamar tanta atenção das pessoas ao redor como acontecia com sua irmã. Enquanto H. parecia emanar uma luz exterior em seus atos diários, V. permanecia na mais absoluta escuridão em seu interior. Antes de chegar àquele dojo ela havia se fechado para quem sabe ter uma chance de sobrevivência naquele mundo cruel, e então quando as coisas pareciam estar melhorando e V. poderia enfim ter alguém que se importava com ela, H. apareceu para desequilibrar tudo. E onde V. parecia brilhar sozinha anteriormente, H. dera um jeito de ofuscar a atenção de todos somente para si. Depois de algum tempo, V. simplesmente havia desistido de tentar ser a melhor porque obviamente todas as pessoas a enxergavam como uma sombra malfeita de sua irmã, apenas um complemento e o oposto esquisito desta. Até então os alunos do dojo nunca haviam sido uma real ameaça para V., mas H. parecia ter o dom de cativar o tutor de tal maneira que ele freqüentemente prestava atenção nela e a elogiava por todas as coisas que fazia. E obviamente as comparações vieram de forma arrebatadora logo depois. V. precisava ser mais espontânea. V. precisava ser mais feliz e sorrir mais. V. precisava ser mais flexível durante as lutas. V. precisava ser mais parecida com H.. O que todos queriam dizer, incluindo o tutor era que V. precisava se tornar uma cópia de H. para ter lugar naquele mundo. Só que o que V. realmente precisava era que alguém retirasse o sorriso encantador da cara de H. de forma abrupta e violenta. E o ódio a consumiu conforme o tempo foi passando, assim como a inveja, o ciúme e a frieza. O tutor de V. não era apenas mais seu. Ele deixara de ser seu pai para se tornar um completo estúpido que possuía um coração mole quando se tratava de H.. Havia uma bondade excessiva transbordando dos dois a ponto de conseguirem alastrar esse estado de espírito para cada canto e pessoa daquele dojo, deixando V. enjoada e nem um pouco desejosa daquela mudança, já que nunca iria se deixar afetar pela mesma. O vazio que V. sentia em relação às pessoas se transformou em um grande abismo, onde o fundo escondia as pontas afiadas e mortais de inúmeros desejos e idéias reprimidas, fazendo com que ela pudesse pensar de forma clara pela primeira vez em muito tempo, já que seu desapego havia se tornado absurdamente palpável. E ela idealizou uma determinada cena em sua cabeça. E a planejou. E de repente apenas imaginá-la não era mais suficiente porque o ódio continuou cutucando-a para finalmente executar tal ação. V. partira do princípio que cada pessoa possuía um ponto fraco no mundo, um elo frágil que poderia de alguma forma ser quebrado e por fim destruir tal pessoa. E era com esse pensamento que ela atacaria de maneira silenciosa e alcançaria seu principal objetivo. V. era a inimiga ideal. A camuflagem por estar tão perto além de exalar confiança para seu alvo seria fundamental para a execução de sua idéia. Uma ardência em seu braço cortara o fio de seus pensamentos e a trouxera de volta à luta. V. não poderia tornar-se cega de ódio nesse momento. Ela precisava manter-se firme. Imediatamente afastou-se de H. em uma distância segura para avaliar seu braço esquerdo. Um corte grande e profundo estava fincado em sua pele.
— O que ele diria se visse você adotando meus padrões, Holy? Tenho certeza que vingar-se de mim não está em seu roteiro de boas ações anuais. — ela não pôde deixar de comentar enquanto olhava para sua irmã com um certo desdém.
— Isso não é vingança. É justiça.
V. sorriu com a ingenuidade desse comentário e aproveitou para emendar:
— Eu não vejo diferença alguma.
Holy a observava com um olhar escurecido, uma pontada de inconformidade aparecendo nas bordas e V. teve então a certeza de que a acusação seria feita muito em breve.
Você o matou, Victoria! Eu não poderia deixar que nosso pai morresse em vão. Você de alguma forma precisa pagar por isso.
Seu pai! — Victoria consertou. — Aquele homem nunca se importou comigo a ponto de merecer esse título da minha parte.
— Ele deu a você um nome! Ele a chamou de Victoria porque você sobrevivera de forma inexplicável às coisas ruins que lhe acontecera no passado e apesar disso parecia querer seguir em frente e melhorar de vida. Ele cuidou de você e a amou como se fosse uma filha, e mesmo assim você o matou sem um resquício de dúvida. E para quê? Apenas para me afetar?
Victoria conseguiu capturar uma beirada de desespero na voz de sua irmã. Era bom que ela continuasse descontrolada porque dessa forma a luta já estava ganha.
— E ao fazer isso eu finalmente consegui destruir você, não é mesmo? — expressando um sorriso de satisfação. — Eu faria tudo novamente para ver a reação de seu rosto mais uma vez. Foi impagável!
Holy estava cansada de fazer com que sua irmã pudesse enxergar verdadeiramente os fatos. Mas ela sabia que essa luta em particular já estava perdida.
— Você não tem idéia de quantas vezes ele me confessou que havia falhado com você e que se sentia culpado por causa disso. Só que isso não é verdade porque não se trata de mim ou dele, mas sim de você. Você é que já estava estragada, não é mesmo?
O ventou açoitou de maneira ainda mais violenta e forte tudo que estava exposto naquele vale. Ele parecia querer brigar com as duas e até mesmo, por vezes, querer apaziguar aquela situação. Victoria aproveitou o silêncio para partir para cima de Holy novamente, e em um momento oportuno acabou chutando o tórax desta apesar de ter a certeza que sua irmã conseguiria se defender a ponto de perpassar a espada em suas costas e cortá-la superficialmente naquele lugar. A defesa de Holy, entretanto, não surtira efeito algum porque o chute potente que recebera sabia exatamente onde acertá-la para deixá-la com uma falta de ar momentânea e obviamente enfraquecê-la. Victoria aproveitou esse momento de desconcentração para distanciar-se mais uma vez a fim de atirar um de seus sai em direção à outra. Um grito raivoso misturado a dor saiu da boca de Holy quando o aço da arma rasgou e perfurou a carne de sua coxa direita, justamente a perna que continha um joelho problemático por tê-lo fraturado em sua infância. Ela se ajoelhou e tentou retirar o sai de maneira cuidadosa, encharcando suas mãos de sangue durante o processo. Victoria levou sua mão até as costas onde o terceiro sai estava escondido até então e puxou-o de lá. Aproximou-se de sua irmã que estava desarmada, a espada esquecida ao seu lado, e parou justamente em sua frente. Holy nivelou seu olhar com o da irmã.
— Eu aturei você durante onze anos. Acho que posso dar um desconto devido a esse fato e te privilegiar com o direito de dizer suas últimas palavras.
Holy desviou sua atenção para os sai apontados em seu rosto. Sua respiração ainda estava rápida e superficial por conta da dor que sentira ao repuxar a arma de sua perna. Uma de suas mãos pressionava o ferimento com força.
— Você não merece esse nome. — ela voltou a encontrar seus olhos com os de Victoria. — Ele não combina porque você nunca foi vitoriosa.
— É mesmo? E quando eu tenho minhas armas apontadas para você e estou prestes a te matar? O que a sagrada Holy acha disso então?
— Não é à toa que ele parecia ter conhecimento de com quem estava lidando desde o princípio. Em nenhum momento ele se mostrou surpreso quando você o traiu porque no fundo ele sabia quem você era. E agora eu também sei. Você é e sempre será Vengeance de corpo e alma.
Vengeance segurou as empunhaduras de suas armas com mais força ainda a ponto das articulações de seus dedos se tornarem esbranquiçadas enquanto sua imaginação já estava prevendo a quantidade de sangue e o nível de dor e sofrimento que consumiriam Holy quando os sai estivessem cravados em seu abdome. E ela também não pôde deixar de recordar da sensação de perfurar o peito de seu tutor na altura do coração. Em nenhum momento ela tivera qualquer titubeação momentânea. Seu ódio imediatamente desapareceu com sua ansiedade e incerteza e a elevou em um estado sem falhas. Ela gostara da encenação entretanto. Ele fora pego fora de guarda e obviamente se tornara um alvo fácil. Tivera o cuidado de executar seu plano já tarde da noite para não ter a preocupação com outras pessoas indo e vindo, e também de ter a certeza que Holy apareceria no momento exato. Seu rosto surpreso e contorcido com dor ficaria gravado na memória de Vengeance para sempre. No entanto, a incredulidade de Holy a projetou em um possante ataque de fúria e fê-la voar em cima da irmã para impedi-la de girar o punhal dentro do corpo do tutor mais uma maldita vez. E, com isso, as duas acabaram travando uma luta corporal violenta de modo que Holy, em um golpe certeiro, fraturasse um dos punhos de Vengeance e esta conseguisse fugir com receio de se prejudicar ainda mais, caso decidisse continuar ali. Com a vontade crescente de rasgar a carne de Holy emergindo violentamente de cada canto de seu cérebro, Vengeance precipitou-se para frente a fim de realizar seu último e derradeiro golpe expondo um pequeno sorriso com uma visível nuance de satisfação pessoal. Sua visão, entretanto, não estava respondendo diariamente de acordo. E a partir disso muitas coisas aconteceram ao mesmo tempo. Aos olhos defeituosos de Vengeance a cor vermelha parecia ganhar destaque a cada segundo que ela continuava a encarar o corte na bochecha de Holy. O sangue já não tinha mais uma coloração escurecida porque agora preenchia todas as bordas do ferimento de forma vívida e hipnotizante, fazendo com que Vengeance se prendesse muito a esse fato e esquecesse de observar o quadro geral do que poderia estar prestes a acontecer. Os sai paralisaram no ar momentaneamente por conta da surpresa e esse erro foi muito bem aproveitado por Holy, que ao se dar conta da pequenina vantagem tratou de agarrar a arma da irmã que estava jogada ao seu lado e que ainda continha seu próprio sangue e, utilizando seus joelhos e mãos, arrastou seu corpo rapidamente a fim de postar-se atrás de sua inimiga. Vengeance percebeu sua estúpida falta de atenção quando sentiu o braço de sua irmã enganchar em seu pescoço e forçar seu tronco para trás para enfim encostar-se ao da outra. Ela tentou movimentar seus sai para acertar qualquer ponto de Holy com o intuito de soltar-se, mas o aperto de seu pescoço aumentava todas as vezes que tentava fazer algo do tipo.
— Você sabe que eu sou mais forte que você. — Holy sussurrou no ouvido da irmã, fazendo com que esta soltasse um riso em deboche.
— As pessoas podem pensar que a sagrada Holy se comporta como uma pessoa pura e bondosa o tempo inteiro, mas eu te conheço melhor. Você não sabe jogar limpo.
— Eu tive que aprender alguns truques com você, não é mesmo, querida irmãzinha?
— Não me chame de irmã. Você não é nada para mim. A única coisa que você conseguiu conquistar foi o título de verdadeira vadia que apareceu para destruir a minha vida. — Vengeance cuspia cada palavra em resposta.
— Você sabe que nós não estaríamos aqui hoje se eu apenas estivesse inclusa nessa categoria.
Vengeance tentou se soltar novamente, mas o aperto em seu pescoço dessa vez conseguiu quebrar o fluxo de ar em seus pulmões e fê-la engasgar e tossir descontroladamente.
— Antes de você morrer, e você sabe que eu não vou hesitar como você mesma o fez, eu deveria te atualizar quanto aos fatos similares que envolveram nossas adoções. Você realmente achou, Victoria, que seria a única que receberia um nome inteiramente novo por ser uma pessoa especial? — Vengeance arregalou os olhos nesse momento ao prever o que poderia acontecer a seguir. — Com toda a sua habilidade de reflexão, você realmente achou isso? Pensei que você fosse muito mais inteligente!
Holy percebeu que o corpo de Vengeance estava mais tenso por baixo de seu aperto e aproveitou para respirar umas três vezes antes de continuar com sua confissão.
— Ele deu uma vida a você quando resolveu lhe dar um nome. Victoria – Vitória. Só que essa era a sua primeira vida porque você não conseguia se lembrar de nada antes dela. Mas de algum modo você nunca se sentiu satisfeita e nem vitoriosa por tê-la, não é mesmo? E é por isso que você queria mais e mais. E quando eu apareci, você já tinha um grande motivo para matar Victoria e se tornar Vengeance – Vingança. Uma segunda vida com total e absoluto controle, o quão tentador isso é?
Holy puxou o cabelo de Vengeance para trás com a mão que ainda segurava o sai ensangüentado. Ela estava com raiva e precisava extravasar daquela forma.
— Eu já tinha uma vida antes de vocês me conhecerem. Eu tinha uma mãe que escolheu me chamar de Holy – Sagrada – por algum motivo. Talvez você tenha ficado com inveja do meu nome fluir de maneira muito melhor com minha personalidade do que o seu com a sua. Mas o ponto é que o seu erro foi ter pensado que você era única e especial para ter uma nova vida. E ele percebeu que você não merecia essa chance muito antes de você. — sua boca encostou ao ouvido de sua irmã antes de prosseguir com o resto. — Eu fui escolhida por ele para suprir o que você nunca se tornou. Ele sempre procurou por uma filha, mas nunca a encontrou dentro de você. E foi por isso que ele me deu uma segunda vida. Eu me transformei em Hope – Esperança – porque ele sinceramente esperava que eu pudesse atingir suas expectativas. E eu atingi, Vengeance. Eu fui sua filha até o fim. Mas você não suportou assistir isso e teve que tirá-lo de mim, não é mesmo? Você precisou matá-lo para tentar sentir qualquer coisa dentro dessa sua cabeça doentia. — Hope respirou fundo antes de suas últimas palavras fluírem por sua boca em um tom baixo. — Eu sei o motivo de você não ter conseguido me matar quando tivera a sua chance mais cedo, Vengeance. Todo mundo, principalmente você, deveria saber que a esperança é a última que morre. A vingança, por outro lado, envenenou você diariamente e nunca a elevou em um estado pleno. Ela matou a sua alma. E é por isso que você vai morrer aqui hoje.

4:07 ~ 5:03
Vengeance sentiu o aperto de Hope afrouxar um pouco de seu pescoço quando esta rapidamente levou seu outro braço para trás – em uma tentativa de pegar maior velocidade e impulso – e cravar o sai brutalmente em suas costas na altura exata do coração, a ponta da arma arrebentando com tudo que aparecia em seu caminho para enfim surgir à frente de seu corpo.
— Quem é a verdadeira vadia agora? — Hope continuou a segurar sua irmã até que esta desse algum sinal de fraqueza corporal. — Você destruiu a minha vida e eu tive que pagar com a mesma moeda. Traidores deveriam ser mortos pelas costas e, veja só, você faz parte do time.
Hope girou a empunhadura da arma para fazer o maior estrago possível dentro do corpo da irmã enquanto a escutava berrar em agonia. Ao sentir que o corpo de Vengeance debaixo de seu aperto sufocante fraquejava e se tornava pesado à medida que os segundos iam passando, ela resolveu puxar o sai sem qualquer tipo de cuidado para fora e empurrar sua inimiga bruscamente para frente, esta caindo mole e lentamente ao chão. O que era o impacto do chão duro debaixo de si quando Vengeance sentia seu ferimento arder de maneira tão insuportável que a dor parecia querer destruir cada conexão e articulação de seu corpo? Tudo estava se quebrando dentro dela. As sensações pioravam ainda mais de proporção quando tentava sugar um pouco de ar para dentro de seus pulmões. Seu corpo estava curvado para frente e ela se deu conta então de que não queria morrer daquele jeito. Precisava olhar para uma coisa melhor do que a maldita cor acinzentada que preenchia cada pedaço de grama daquele vale. Mais pontadas afiadas a atingiram quando posicionou seu corpo virado para a imensidão clara acima de sua cabeça. Gotas de suor soltavam de seu rosto pelo enorme esforço enquanto sua boca já apresentava um estado avançado de completa secura. O ar estava se tornando cada vez mais rarefeito e ela sabia que não tinha muito tempo de vida. Levou sua mão direita até o ferimento para capturar um pouco do líquido avermelhado e então levantou-a a frente de seu rosto para poder enxergar o resquício de sangue que tingia sua pele sem pudor algum. Ela iria morrer com seus olhos focados em uma cor cromática. Esta era sua única certeza naquele momento. Seus dedos abriam e fechavam para que a luz solar pinicasse em seu rosto e projetasse inúmeros tons de vermelho em suas íris. No entanto, um ataque de tosse a atingiu violentamente, fazendo com que Vengeance tivesse que fechar os olhos por conta da dor que isso tencionava sobre ela. Seu tórax havia triplicado de peso e agora ela já conseguia sentir um formigamento aparecendo através de seus membros, denunciando que tudo começava a falhar dentro dela. Ao abrir os olhos, talvez até mesmo pela última vez, ela viu que o sol que até então brincava em seu rosto parecia ter adquirido uma coloração diferente de uma hora para outra. E foi aí que ela se deu conta. Vengeance estava morta. Essa certeza crescera ainda mais de tamanho porque existia um novo ponto de cor picotando lentamente em suas íris. Aquilo era imaginação? Uma ilusão que seu cérebro acabara criando para que ela pudesse morrer confortavelmente? E então... lá estava a cor novamente, bordando o céu acima daquele vale em um azul claro acompanhado de um branco vívido. Tudo aquilo estava acontecendo através dos olhos de Victoria e não mais dos de Vengeance porque era Victoria que sempre tivera a capacidade de enxergar cores. Uma lágrima se desprendeu de seus cílios quando a realidade finalmente a atingiu. Ela era Victoria novamente. As cores estavam voltando para ela. Virou seu pescoço para encarar a grama e esta estava ganhando vida e se convertia cada vez mais em um verde infinito. Seu olhar voltou então para a mão ensangüentada e o vermelho não parecia mais tão esquisito ao entrar em contato com a cor clara de sua pele. Seu mundo voltava a fazer sentido. As cores não eram mais desbotadas como vinha acontecendo desde que resolvera adotar a filosofia de Vengeance. Tudo era frio e distante o tempo inteiro naquela época. A última vez que conseguira enxergar uma cor ela havia matado seu tutor e antes mesmo que Holy tivesse aparecido para impedi-la, o sangue que saía de seu ferimento já havia se transformado em um estúpido acinzentado para fazer companhia ao resto de tons ao seu redor. Victoria sentiu vontade de sorrir por estar finalmente ciente de tudo, mas com essa completude também surgia um monte de outras coisas que estavam dormentes em seu âmago até então. Sensações. Sentimentos. E quando se deu conta, seus olhos já se mostravam marejados pelas lágrimas quando a culpa reverberou em cada canto de seu corpo, uma dor muito maior e excruciante que um simples ferimento em seu coração poderia produzir. Por puro egocentrismo ela havia se tornado um monstro, uma filha que tivera a coragem de renegar seu próprio pai por conta de atitudes mesquinhas que não a levaram a lugar algum. Ela havia matado a única pessoa que lhe estendera a mão e que parecia amá-la apesar de tudo. Mesmo com seus inúmeros defeitos ele nunca a abandonou. Nem mesmo no final. E agora seu estômago se contorcia e revirava de sensações ruins que queimavam lá dentro. Victoria quis vomitar todo o nojo que estava sentindo de si mesma para que ele finalmente desaparecesse e a deixasse em paz. Mas ela sabia que no fundo merecia que aquele peso não fosse embora porque até que viesse seu último suspiro ela iria mantê-lo em seu íntimo, revirando suas entranhas, já que aquilo era remorso e ela deveria morrer com esse fardo. Sua respiração estava tão fraca que a energia para permanecer de olhos abertos exigia uma força que já não existia mais dentro dela. Seus sentidos se misturavam e se perdiam em inúmeros pontos de dormência que voltaram a aparecer em suas extremidades. Victoria sentiu suas lágrimas escorrerem pelo rosto quando, em um último esforço, levou sua mão até o pescoço à procura de sua corrente prateada com o intuito de segurar o anel de seu pai firmemente em sua mão. Voltou a encarar o azul acima de sua cabeça e lentamente, como se estivesse apreciando àquela ação até o último momento, conseguiu esboçar um sorriso diante da beleza que o mundo sempre fizera questão de apresentar aos humanos. As nuvens se mexiam preguiçosamente e pareciam acompanhar o ritmo lento de sua respiração. Em algum ponto, Victoria havia se perdido completamente. Permanecera por tanto tempo nas sombras que ela não conseguia mais enxergar sentido no mundo. Mas agora ela via as pequenas coisas que sempre estiveram em sua vida. O modo carinhoso que seu pai a tratava. Holy tentando plantar um sorriso em seu rosto e, de vez em quando, conseguindo. Tantos outros exemplos sutis, mas que poderiam ter sido importantíssimos se ela realmente soubesse o significado verdadeiro de família e felicidade. Tivera que desperdiçar sua grande chance porque não estava preparada para nada daquilo. Talvez Victoria merecesse ir embora para tentar novamente, afinal de contas. E assim ela foi.

5:04 ~ 5:33
Quando Hope se aproximou de sua irmã um pouco mais tarde segurando os sai que foram cuidadosamente limpos em seu sobretudo, ela sabia que Victoria já havia partido para sempre. Ajoelhou-se ao lado do corpo da irmã, sua coxa reclamando de dor pelo movimento, e encarou seu rosto paralisado. Suas feições estavam tranqüilas, os olhos abertos revelando suas pupilas maiores que o usual enquanto o azul do céu ainda refletia e se misturava ao azul das bordas de suas íris. Levou sua mão em direção aos olhos e os fechou, a palma de sua mão descansando carinhosamente em seu rosto por mais alguns segundos.
— Você foi uma boa amiga. — Hope sussurrou de maneira quase inaudível quando sentiu seus olhos marejarem. — Foi sua melhor fase, Victoria. Você era uma amiga excepcional. Minha melhor amiga. E é por isso que a partir de hoje só irei guardar em minha memória esse seu momento para quando, eventualmente, eu tiver que me lembrar de você.
Hope esfregou seus olhos com o punho de seu sobretudo e então encaixou o par de armas no cinto de sua irmã do jeito que ela sempre gostava de fazer quando ainda viva. Retirou cuidadosamente a corrente de seu pescoço, libertando o anel roubado que pertencia ao seu pai do aperto de aço da mão de Victoria e o deslizou no tecido de sua calça para limpar o resquício de sangue. Observou o brasão de sua família por um tempo antes de escorregá-lo em seu próprio dedo. Ali ele ficaria seguro porque agora ela estava mais do que segura ao ter se tornado a última de sua linhagem. Os olhos escuros de Hope visualizaram uma última vez o rosto de sua irmã enquanto sua mão limpava rapidamente as lágrimas e o suor de sua pele. Voltou sua atenção para o ferimento em seu peito e constatou que o colete vermelho de seu uniforme estava embebido em uma excessiva quantidade de sangue que parecia formar outras tantas variações de vermelho no tecido. Hope desabotoou seu sobretudo e o retirou para esticar o tecido em cima do corpo da irmã. Ajeitou as pontas e tentou prender, pelas laterais, o material embaixo de Victoria. Ao perceber que o tecido preto e pesado havia tomado conta de qualquer resquício de pele clara, ela umedeceu os lábios secos e murmurou:
— Adeus, Victoria.
Hope levantou-se e caminhou lentamente até onde sua espada estava esquecida para poder embainhá-la em seu lugar de origem, repuxando um pouco a perna machucada durante o processo. Quando finalmente dera às costas para Victoria alguma coisa já estava diferente dentro dela. Seus ombros estavam mais leves. Não existia mais um peso que a empurrava para baixo e a consumia incansavelmente para seguir em frente e alcançar seu objetivo final. Não existia mais nada agora. Hope não precisava mais fazer parte de sua vida. E pela primeira vez em muito tempo ela conseguiu sorrir aliviada. Enquanto o vento parecia querer brincar com cada fio de seu cabelo castanho, Holy observou a grama esvoaçando ao seu redor, o verde encontrando inúmeros padrões com o verde de seu colete. Não precisava mais estar coberta em preto porque seu luto finalmente estava extinto de seu âmago. E então ela se deu conta que tinha toda uma vida pela frente. Só que antes disso, ela apenas precisava caminhar por aquele vale e sentir a grama embaixo de si, o vento bater contra seu corpo e o sol iluminar seu caminho a cada passo dado. Holy estava extraordinariamente viva e assim gostaria de permanecer por muitos anos a fio. Ela era apenas humana, afinal de contas.


Nota da autora: Eu sempre percebi um tom melancólico e dramático no início e meio dessa música. No final, por outro lado, Gong transmite uma pontada de esperança. E é isso o que ela é. A melancolia está lá, mas de certa forma a cada segundo de melodia, o som parece querer crescer e de repente se tornar algo melhor, algo bom. Eu sempre imaginei essa história quando escutava a música. Obviamente ela se tornou muito maior do que a idéia original, mas eu acabei gostando dos detalhes acrescentados. A personagem principal é e sempre será Victoria. Eu não tenho certeza se consegui mascarar sua personalidade de forma correta até que o motivo de ela estar naquele vale fosse revelado, mas eu tentei. Não sei se o final pode ser feliz ou triste porque vai depender muito de como cada uma das irmãs será percebida. Eu gosto igualmente de ambas, por isso não irei opinar sobre esse final. Achei bastante interessante também a idéia de brincar com os nomes das personagens. E o que acaba sendo muitíssimo curioso é que Gong não tem letra porque essa banda islandesa - Sigur Rós - criou uma língua própria que serve somente para dar ritmo e melodia às músicas, sem uma gramática específica que é chamada de Hopelandic (Esperancês).

Observação: Clique no título da história caso queira baixar a música.
 
 
Music: Sigur Rós - Gong
 
 
 
(Anonymous) on July 22nd, 2010 06:53 am (UTC)
Gong
Primeiramente gostaria de lhe parebenizar por essa incrível história, e respectivamente por te me apresentando a ela. Adorei ler o seu ponto de vista diante dessa música tão envolvente. Esperança. Exatamente, foi essa a sensação que essa música me mostrou, porque por mais que as coisas pareçam estar erradas, ela (a esperança, a luz) sempre encontra um jeito de amenizar tais erros e tentar mais uma vez, ou quantas vezes forem necessárias! Amei essas personagens, a Victória de alguma forma acabou buscando a própria morte involuntariamente na tentativa de consertar tudo e a Holy como uma amiga/irmã que a ajudou a ver as injustiças que a irmã cometeu. Adorei as caracterizações das personagens, os sentimentos,e o cenário estava bem de acordo com o momento e no fim gostei dos sentimentos de ambas. Final espetacular!

Aí, admiro a sua forma de escrever: pronfunda, detalhada e bem desenvolvida!

Parabéns novamente!

Tamy.

P.S.: Me segurei para não colocar a música logo do princípio, entretanto fui forte no propósito de seguir a sua dica, e coloquei a canção só no final! XD